Wednesday, June 6, 2018

Mudanças e o Cérebro Muquirana

Hoje acabou a natação da minha filha, ela tem 8 anos e ,desde os 5, vamos 2 vezes na semana nadar, eu e ela, e hoje tivemos várias mini despedidas. Me despedi de pôr o maiô na pequena (pra mim ela ainda é pequena, tá?), da piscina, do vestiário, de secar o cabelo dela, de gritar para sair do banho … Pequenas coisas assim, mas que vou sofrer por parar de fazer.

Essa vida que muda é muito foda!

A gente fica se acostumando com nossa vidinha com nossas rotinas e hábitos ... E de repente as coisas parecem que nem água esquentando, entram em ebulição tudo ao mesmo tempo.
Nosso ser clama por mudança, mas nosso cérebro é uma máquina de se acostumar ... O cérebro faz de tudo pra economizar energia (afinal consome 20% da nossa energia mesmo tendo apenas 2% do peso corporal). Para ser efetivo o cérebro não pode ficar fazendo muitas conexões novas. Essa habilidade de se adaptar que o cérebro tem (plasticidade neural no jargão científico) custa muito caro. Aprender coisas novas ou novas maneiras de fazer coisas, custa caro. O cérebro é um bicho murrinha, muquirana, não quer gastar. E o que ele faz pra isso acontecer? Ele te faz de trouxa! Faz parecer que nada muda, que tudo é permanente, que o mundo fixo é uma regra absoluta.

Obviamente que isso só pode levar a sofrimento, por mais que você, inocentemente, deseje que as coisas não mudem, saiba que só existe uma coisa que é absoluta:  TUDO MUDA. A raiz do sofrimento é nosso apego a essa ideia de imutabilidade do universo. Todo mundo sabe disso, as grandes filosofias e religiões do mundo pregam isso há (literalmente) milênios. Mas vai explicar pro desgraçado do teu cérebro isso … O sovina não quer saber não … Quer tudo percebido igualzinho para que não precise se mexer muito.

Existem vantagens inegáveis a esse sistema. Por exemplo, no Brasil somos ensinados a dirigir carros manuais. No começo é um sofrimento: pisa na embreagem, pensa que lado fica a 3a, pisa no freio (antes piso na embreagem? não! sim?) olha o retrovisor, mas rapidinho volta pra frente, ufa! não bati em ninguém… depois de um tempo fica tudo automático. Dirigir, jogar futebol, tricotar, digitar, correr, ver as horas … tudo automatizado para que possamos gastar nossa energia cerebral em outras coisas enquanto fazemos tudo isso sem pensar muito (sim meninas, os caras também conseguem fazer outras coisas ao mesmo tempo, mas geralmente usam esse tempo para pensar em futebol e sexo mesmo).

A economia de energia que conseguimos ao automatizar esses processos mentais é tão brutal que o cérebro acha que o ideal é automatizar tudo. O problema é que só automatizamos o que não muda. Que o diga quem dirige pela primeira vez um carro automático.
A grande pegadinha do cérebro é, então, fazer você pensar que NADA MUDA! Assim ele automatiza tudo! Sua rotina ajuda muito a isso acontecer: horários fixos, programas fixos, mesmas pessoas, mesmos assuntos, mesmos posicionamentos. Tudo sempre te levando a crer que é para sempre e que nada nunca mudará. Mais dos mesmos.

Agora tem um problema que o cérebro ainda não aprendeu a lidar, e se chama: "Realidade". E quando confrontado com ela, o cérebro (que é um cara inteligente), acaba tendo que perceber a incongruência com suas preparações e começa a ter que gastar uma fortuna para readaptar a essa situação. Melhor pagar caro do que mostrar que é falível, certo? Mas mesmo que o cérebro se adapte a tudo (tem gente que escuta pagode japonês pelamordezeus!), essa adaptação não é imediata. E aí que entra o sofrer. Até que você consiga considerar a nova situação normal (eita cérebro maquiavélico) você não consegue lidar com ela de forma automática, saiu da sua zona de conforto … e todos sabemos que se sair de zona de conforto você estará sofrendo, sem excessão!
Toda mudança dói.
Você não vai perceber o que você se acostumou a não perceber até que aquilo venha e te dê um bom chute no traseiro.

Não tem como escapar disso.
Relaxe … isso é a condição humana.
Se treine para aceitar o mais rápido possível as mudanças. Muitas vezes isso significa diminuir o ritmo, ter visão significativa (procurando significado) e periférica (olhar em volta e ver as flores!); realmente ver, olhar, escutar, cheirar e sentir as coisas. Os sentidos e as emoções vem de outra parte do seu sistema nervoso, mais primal, mais em contato com o bicho que existe na gente, pronto para fugir ou lutar. Use sensações e emoções com sabedoria e vai ser um gigantesco aliado nessa vida.
    
Se dar bem com mudanças exige muito da pessoa, exige coragem desmedida. Difícil a pessoa ser corajosa a ponto de mudar sem sofrer, sem sentir que faltou chão. O bom é que coragem não tem limite, não se esgota, e como todo bom músculo, quanto mais se usa, melhor fica de usar da próxima vez. O mais legal de coragem é que: ser corajoso e se fingir de corajoso é a mesma coisa!
Se não se acha corajoso, finja!
E a natação? Bom, sabendo de tudo isso, fiz o que pude. Escrevi esse texto, me despedi de certas coisas (do jeito que deu!), senti saudades antecipadas e apanhei para dormir, mas estou fingindo ter coragem, né? e agora esperar que o cérebro desgraçado se acostume com essa nova realidade … até haver outra mudança né? … aí começa tudo de novo!


E vamos em frente. Mudando sempre!